segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Memória da aula do dia 18/09- Apresentação texto de Magnani
MAGNANI, Luiz Henrique. Um passo para fora da sala de aula: novos letramentos, mídias e tecnologias. In: JORDÃO (org.) Letramentos e Multiletramentos no Ensino de Línguas e Literaturas. Revista X, vol.1, :1-18, 2011
APRESENTAÇÃO DO TEXTO
O artigo é resultado parcial de pesquisa realizada com apoio financeiro da Fapesp.
Luiz Henrique Magnani http://www.bv.fapesp.br/pt/pesquisador/50537/luiz-henrique-magnani-xavier-de-lima/
Publicado em DOSSIÊ ESPECIAL:
JORDÃO (org.) Letramentos e Multiletramentos no Ensino de Línguas e Literaturas.Revista X, vol.1, 2011
Estudos sobre letramento e práticas de linguagem relacionadas às novas mídias e tecnologias devem:
abordar uma realidade complexa que demanda processos particulares de construção de sentido;
novas formas de troca não redutíveis a relações escolares mais tradicionais.
Devem ainda ter reflexão sobre dois pontos:
a ênfase em outros contextos que não o da sala de aula ;
a percepção de que toda prática letrada sempre será sinestésica e assim deverá ser abordada
Objetivo do trabalho: compreender como práticas ligadas a esses novos contextos têm sido abordadas nos estudos do letramento.
Defesa do autor:
que tais estudos estejam dentro de uma abordagem política e ética frente à linguagem em uso nas mais diversas esferas sociais e relacionadas a um contexto de distribuição desigual de poder, do qual o ambiente escolar é mais uma instância.
que sejam feitas mais pesquisas que tenham como foco práticas em espaços extraescolares - envolvendo novas mídias e tecnologias ou não – e que partam do local em que elas efetivamente ocorrem. Isso, mantendo-se o foco em uma busca por espaços que possam fomentar uma reflexão social crítica.
1ª parte do texto
NOVOS LETRAMENTOS, MULTILETRAMENTOS E CRITICIDADE: BREVE HISTÓRICO
Nesta parte do texto, Magnani apresenta uma breve genealogia e pressupostos que sustentam o termo letramento trazendo alguns pontos centrais no termo literacy especialmente nas perspectivas teóricas recentes como as de Multiletramentos ou NLS.
2ª parte do texto
NOVOS LETRAMENTOS, MÍDIAS E TECNOLOGIAS
Aqui o autor apresenta e analisa novas perspectivas de estudos de letramento incluindo, de um modo ou de outro, práticas relacionadas às novas mídias e tecnologias nas reflexões.
3ª parte do texto
A “ESCOLA FORA DA ESCOLA” EM FOCO
Nesta seção, Magnani apresenta alguns impasses e questionamentos sobre o estudo do letramento nos contextos escolar e extraescolar colocando o foco na relação entre novos letramentos e formas de aprender e de agir social e politicamente
Principais temas e argumentos apresentados no texto
1ª parte: NOVOS LETRAMENTOS, MULTILETRAMENTOS E CRITICIDADE: BREVE HISTÓRICO
Novas propostas de estudo de novos letramentos : autores distanciam-se de uma visão acadêmica mais tradicional por julgarem central um estudo situado, com perspectivas bem delineadas ética e politicamente ao terem como meta o fomento de um espaço que dê voz a sujeitos de comunidades não favorecidas pela estrutura social. (p.4)
Construção de sentidos- o sujeito não assimila passivamente conteúdos, opiniões e conhecimentos, mas os articula em um trabalho ativo, em relação a sua trajetória, seus conhecimentos prévios e seus interesses. (p.4)
Mérito das novas propostas:
De um ponto de vista linguístico e semiótico, chamam a atenção para o fato de que a relação com a língua e o aprendizado de linguagens não é algo abstrato, mas diversificado e dependente do contexto cultural. Assim, se explicações universais ou universalizantes tendem a silenciar as vozes dissonantes valorizando algumas localidades e práticas em detrimento de outras, o foco na complexidade local dá a oportunidade de refletir sobre as conflituosas diferenças culturais e sua relação com os usos concretos da língua. (p.4)
A construção de sentido – seja na leitura de um texto impresso ou na leitura do mundo – é vista como um processo ativo, no qual o interlocutor tem papel fundamental. (p.4)
“Letramento crítico”, processo no qual a construção de sentido frente a textos seria:“um processo de construção, não de exegese; atribui-se sentido a um texto em vez de extrair dele tal sentido. Mais importante, o sentido do texto é compreendido no contexto de relações sociais, históricas e de poder, e não somente como o produto ou a intenção de um autor. (p.4)
Ademais, ler é um ato de vir a conhecer o mundo (bem como a palavra) e um meio para a transformação social (CERVETTI, PARDALES e DAMICO, 2001, p. 6).
Dois grandes méritos das perspectivas apresentadas sobre letramento:
o foco na reflexão analítica da língua em uso, percebida em um contexto concreto compreendido em dois níveis: o da situação imediata com suas particularidades locais; mas também o entorno social e político mais amplo no qual essas relações estão imersas.
a sensibilidade que a tendência em foco possui em relação aos problemas e conflitos a que esses usos da linguagem estão relacionados, bem como sua vocação para a crítica e transformação social, levando em conta uma estrutura não determinística de poder, em que o sujeito ainda que condicionado, age socialmente.
2ª parte do texto: NOVOS LETRAMENTOS, MÍDIAS E TECNOLOGIAS
Bolter (2000): o período em que vivemos é mais visual que linguístico. Elementos computacionais/digitais estão, para diversas finalidades, substituindo práticas anteriormente consagradas. (p.5)
Lemke (2010, p. 456) : “Todo letramento é letramento multimidiático, alegando que não se constrói significado com a língua de forma isolada e que todo signo linguístico carrega significado não-linguístico. (p.5)
Noção de letramento centrada na construção de sentidos, não fechando o escopo na leitura e na escrita ou, mais especificamente, no texto verbal impresso. (p.5)
Estudiosos dos Multiletramentos- ideal de postura ativa- O foco na agência- redesign para designar o processo pelo qual o sujeito reconstrói e transforma os sentidos a partir dos recursos semióticos disponíveis (KALANTZIS e COPE, 2001).
Lankshear e Knobel (2006) entendem os novos letramentos dentro de uma expansão conceitual do termo remix: prática de manipular artefatos culturais e recombiná-los, gerando novas misturas e novos sentidos.
Remix : uma forma contemporânea de escrita,considerando que “escrever" não é algo só feito com o texto verbal impresso, mas pode ser feito de uma forma multimodal – algo cada vez mais evidenciado pelas facilidades trazidas pelas novas tecnologias. Essa prática de recombinar elementos existentes na criação de novos seria uma condição geral das culturas.
Manovich(2003), o acúmulo de registros de mídia analógica que temos em mãos atualmente, somado à viabilidade tecnológica que a digitalização traz para transformar concretamente tais materiais em outros, cria algo qualitativamente novo.
Com isso, artefatos e registros dessa espécie de grande arquivo podem se tornar partes de novas produções culturais e artísticas. Lankshear e Knobel (2006) exemplos –dentre os quais, os memes de Internet- (p.7)
A longevidade do meme, para os autores, tem relação com a sua capacidade em ser parcialmente modificado (em relação aos recursos expressivos utilizados) e repassado, mantendo sua ideia central contagiosa relativamente intacta.
características destacadas nos memes – postura ativa e integração de várias modalidades – (p.7)
- ideia de as práticas analisadas estarem ligadas a um fazer coletivo e a usos criativos e ativo das formas de linguagem disponíveis. O convite para testar e “remixar” está sempre em aberto, e o resultado da remixagem, quando publicado, é filtrado e julgado pela própria comunidade na qual o meme deve(ria) fazer sentido. (p.6)
Lankshear e Knobel (2006)- vinculam expressamente a reflexão sobre novas práticas de letramentos com um convite para se pensar sobre o processo educativo do letramento e sobre o aprendizado na escola.
Pesquisas- novas tecnologias, mídias e as práticas a elas ligadas – memes, blogs, fóruns cibernéticos, videogames – tendem a ser trazidas como um elemento de alteridade ou contraste para o que se intui ou se supõe estar faltando no contexto formal de ensino (p.8)
A partir de uma perspectiva que assume a educação mais amplamente como “iniciação em comunidades e especialmente em práticas de letramento genéricas e especializadas”, o autor entende que “novas tecnologias da informação, novas práticas de comunicação e novas redes sociais possibilitam novos paradigmas para a educação e a aprendizagem, e colocam em debate os pressupostos sobre os quais os paradigmas mais antigos se apoiam” (LEMKE, 2010, p. 461). (p.8)
Lemke (2010) dois paradigmas correntes em disputa:
paradigma da aprendizagem curricular: presente em universidades e escolas e próprio do capitalismo industrial e da produção em massa;
Paradigma da aprendizagem interativa:comum às bibliotecas e centros de pesquisa, em que as pessoas, com base em dúvidas e empecilhos gerados por participações concretas em atividades específicas, determinam o que precisam saber, na ordem e no ritmo que lhe cabem. Seria também aquele potencializado pelas possibilidades que oferecem as novas mídias e tecnologias. (p.8)
A abordagem dos autores voltados às novas mídias e tecnologias tratou das seguintes ideias:
a escola não centraliza todas as formas de saber e conhecimento que circulam dentro da sociedade.
O estudo de práticas letradas comuns aos meios digitais contribui para se questionar e repensar os conceitos e as dinâmicas comuns a uma sala de aula tradicionalmente conhecida e aparentemente em cheque
Deixam ainda em aberto:
que as análises contrastivas ou, de modo mais abrangente, estudos sobre letramentos relacionados à escola são e continuam sendo importantes, por outro lado, não são a única possibilidade de se investigar letramento, aprendizado e construção de sentido;
Também não são suficientes para trazer parâmetros e reflexões sobre os contextos de uso da língua e de linguagens que estão além do espaço da sala de aula.
3ª parte: A “ESCOLA FORA DA ESCOLA” EM FOCO
Refletir sobre o que está ocorrendo fora da escola para compreender melhor o descompasso entre os usos de mídias e novas tecnologias na escola e em comunidades de prática ou redes sociais;( Gomes, 2010) (p.11)
“estar no computador”: uma espécie de resistência em relação à escola e seu modo tradicional de construção de conhecimentos. ( Gomes, 2010)
diversos usos sociais da escrita, por exemplo, têm ocorrido espontaneamente no meio digital, fora do contexto de sala de aula e, muitas vezes, por jovens em idade escolar. ( Gomes, 2010) (p.11)
nas redes sociais de que participam, os usuários fazem uso de gêneros, linguagens e normas de escrita muitas vezes não aceitas ou não privilegiadas pela escola. ( Gomes, 2010)
“por trás da anarquia, da descentralização, há uma atitude contracultural, no sentido em que não enfrenta a instituição escolar, mas silenciosamente Há uma escola fora da escola”. (GOMES, 2010, 3-4).
(p.11)
aprendizados se dão nas localidades nas quais as pessoas circulam e, desse modo, a cidade e a sociedade é que são, no fim, as educadoras dos sujeitos (LEMKE 2002; FRANCO, 2010 apud GOMES, 2010).
Magnani afirma que espaços extraescolares de aprendizado têm sido particularmente destacados atualmente em análises comparativas com o ensino no contexto escolar.
Afirma ainda que esse espaço extraescolar tem cumprido um grande papel para se pensar em possíveis transformações na dinâmica da sala de aula (p.11)
Contribuição que essas pesquisas trazem:
Investigar os aprendizados presentes e distribuídos em toda a sociedade, não reduzindo-os ao contexto escolar;
Apontar que muitas práticas ligadas às novas mídias e tecnologias estão bastante alinhadas com muito do que é prestigiado atualmente em relação a formas de aprender e agir no mundo.
Discussão sobre os jogos:
World of Warcraft (WoW);
The Sims
Observa: não se deve considerar, de modo determinista, que os pressupostos ideológicos presentes em um videogame serão meramente transmitidos a um jogador que os acata passivamente.
Isso, no entanto, não invalida o fato de que o letramento presente nessa “escola fora da escola” das práticas digitais não é meramente ligado com habilidades em abstrato. Diferentemente, também sustenta e reitera visões de mundo e posicionamentos ideológicos específicos.
Retoma o questionamento principal a ser feito ( e um dos itens centrais dos estudos de letramento):“ O quê” e “para que” se aprende e se deve aprender?
Qualquer aprendizado, em sua forma e seu conteúdo, possui uma localidade e está vinculado a modos de conceber e construir a realidade. Os efeitos de cada prática de aprendizado, portanto, devem ser constantemente investigados e colocados em debate.
Pensar eticamente sobre possíveis efeito das novas práticas que têm surgido e se fortalecido com as novas mídias e tecnologias (p.13)
Exemplos e tentativas de se abordar o contexto extraescolar de modo alternativo, buscando promover um engajamento politizado em relação a novas práticas em meio digital cujo foco está na “escola fora da escola”:
counter-meming, que consistiria em criar memes que tenham como meta política “neutralizar ou derrotar ideias prejudiciais”.
criar videogames que tenham como meta promover a criticidade, algo que tem ocorrido com certa frequência atualmente. (p.14)
esse espaço extraescolar é complexo e amplo e tanto o que pode ser aprendido nesses espaços como a forma pela qual se aprende não é passível de uma transferência direta para o contexto escolar.
Por vezes, alguns desses aprendizados socialmente distribuídos podem representar formas de resistência à sala de aula.
Compreender como o sentido é construído, nesses casos, deve envolver estudos que abarquem esse tipo de especificidade.
Últimas parte: CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pesquisas sobre letramentos e linguagem em uso em contextos fora da escola são e serão de grande valia e não devem nem precisam estar amarrados a uma aplicabilidade escolar imediata.
Duas grandes contribuições dos estudos do letramento: a preocupação com o contexto em que tais interações ocorrem e a ideia de que todo letramento é ideológico.
o aprender na “escola fora da escola”, deve ser encarado de modo semelhante a como ele tem sido abordado na “escola dentro da escola”: relacionado a contextos específicos e vinculados a visões de mundo em particular, que tendem a estar em disputa com outros posicionamentos. (p.15)
Última parte: Considerações finais
Essa perspectiva pode trazer resultados e reflexões relevantes sobre aprendizado e construção de sentido em outros contextos, práticas e formas de interagir – em especial, mas não somente – com novas mídias e tecnologias.
Lemke (2010, p. 462), há uma necessidade de se compreender, antes de que possamos sequer ensinar, “como vários letramentos e tradições culturais combinam estas modalidades semióticas diferentes para construir significados que são mais do que a soma do que cada parte poderia significar separadamente”. (p.16)
Lado a lado com os estudos já consolidados sobre letramento e educação, esse novo contexto também exige outros recortes e abordagens, em que o uso de linguagens, o compartilhamento e as disputa de saberes, as visões de mundo, os modelos culturais ocorrem incessantemente.
Os aprendizados são distribuídos e, sendo assim, os diversos locais em que eles ocorrem merecem mais investigações .
Pede uma reflexão mais ampla sobre cultura, ética, aprendizado e linguagem nas mais diversas práticas letradas da sociedade, sejam mediadas por novas tecnologias ou não.
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